16 janeiro 2017

As mulheres e o Ginecologista


Todas aquelas questões de sermos mulheres, termos de ser vigiadas, termos de tomar a pílula, termos de conhecer o nosso corpo, termos de seguir uns certos parâmetros na sociedade, etc., às vezes não é bem assim.


Existem muitas mulheres que não conhecem o seu corpo, que nem sabem bem onde é que fica a vagina relativamente ao anus, que nem sabem que devem limpar-se da frente para trás e isso faz-me uma certa confusão, mas compreendo! Também cresci numa família onde esses assuntos não se falam ou o que se fala também não é por aí além. Não posso dizer que tenha crescido numa família antiquada ou assim, mas quando me apareceu o período aos 10 anos, acreditem, eu não sabia o que tinha. Dizia que não queria estar doente, que não queria andar com pensos o tempo todo e, para azar dos meus azares, o meu corpo estava com um défice qualquer e o período durou-me 15 dias com a intensidade máxima. Eu pensei que ia morrer!

Depois desse episódio horrível, a coisa ficou normal e nunca fui a um ginecologista, aliás, esse nome nem se ouvia cá por casa. Recorri ao médico de família por causa das dores e ele passou-me a pílula e tudo normal. Nunca me preocupei com o assunto, levei a vacina, não tive curiosidade em saber se estava tudo bem ou mal cá dentro, andei sempre na minha, até aos 22 anos.

A partir daí comecei a ouvir as minhas amigas a falar em ir ao ginecologista, em fazer exames, em isto e aquilo e eu só pensava mas porque é que nunca me disseram que eu tinha de ir?, sei lá, para mim aquilo era o ~médico-alien~ que ninguém falava, que ninguém dava a conhecer, ninguém pronunciava o seu nome, por medo ou vergonha, não sei. Provavelmente a vergonha é a justificação melhor, afinal falar-se da mulher, da intimidade dela, continua a ser um tabu, algo que nunca se deve debater, mas eu abri os olhos quando o meu pai esteve doente e desde aí que andei sempre a matutar na coisa, pensando que devia juntar uns trocos e ir, não havia mal nenhum nisso.

O tempo passou, as minhas amigas já só me diziam Mas ainda não foste? És parva? Não queres ver se está tudo bem contigo? e depois de uns problemas de saúde, achei que já tinha deixado passar muito tempo, que estava a ser uma cabeça oca e que devia ir. No final do ano marquei consulta, a minha mãe ainda colocou alguns medos na minha cabeça, como porque vais a essa médica? porque é que vais à consulta? porque é que...? e eu quis calá-la e a todas as vozes que tinha na cabeça a dizer-me que tinha alguma coisa em mim que não estava bem.

Eu fui. É tudo super estranho, principalmente depois de recolherem os nossos dados e fazerem algumas questões perfeitamente normais, nos dizem tire as calças e as cuequinhas e sente-se aqui que eu ajudo-a a ficar na posição adequada para a examinar. Realmente é estranho termos alguém completamente desconhecido a mexer-nos ali, mas é um profissional e eu meti na cabeça que aquilo era tudo normal, algo de rotina e... correu muito bem. Fiquei a saber que tinha lá uma bactéria que veio do lado vizinho e que me estava a fazer mal, tomei medicação e ficou tudo bem

Agora digam-me lá, quantas raparigas/mulheres nunca terão ido ao ginecologista por vergonha/desconhecimento? Eu fui aos 24 anos, por opção própria, porque nunca me disseram que eu tinha mesmo de ir um dia e que era algo absolutamente normal e importante. Há tanta gente a achar que os jovens de hoje em dia sabem tudo, mas não sabem. Podem ler coisas aqui e ali, mas não sabem nada. Há coisas que devem ser faladas e nem os pais falam por vergonha de abordar um tema tão normal como devemos cuidar da nossa saúde, devemos cuidar do nosso corpo, devemos ser examinadas para ver como está o nosso útero, devemos tomar cuidado e proteger-nos contra as doenças, devemos ser o nosso maior aliado no que diz respeito às alterações do nosso corpo. Pequenos passos são dados assim e não quando as desgraças batem à porta. É assim tão difícil falar nisso? Suponho que não, eu pelo menos gostava de ter ido a uma consulta destas mais cedo, bem mais cedo, pois desbloqueou-me vários medos e receios que eu tinha na minha cabeça. A minha maior questão aqui é: porque é que estamos em 2017 e a ~mulher continua a ser tabu?

16 comentários :

  1. É verdade, acho que hoje em dia ainda há um grande descuido no que toca à saúde feminina e ainda existem muitos tabus, mas "as conversas com as amigas", tal como no teu caso, estão a contribuir para mudar isso.:P É de facto estranho, e eu também só fui já depois dos 20.

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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    1. Santas amigas que existem por esse mundo fora :D
      Mas é verdade, a saúde feminina é sempre colocada de parte, tirando quando se fala do cancro da mama. Fala-se tanto do rastreio, do auto-exame, disto e daquilo, mas nunca vi um único apelo às idas ao ginecologista. É tão estranho pensar nisso agora, só que é a mais pura das verdades.

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  2. Cá em casa sempre se falou das coisas - de forma natural e pouco evasiva. Nunca num ambiente de "à vontade" como acontece no nosso círculo de amigos mas o suficiente para conseguir falar sobre esse assunto. Até com o meu pai! É ele que compra pensos e tampões para o mulherio todo cá de casa :P

    O único momento mais "awkward" para mim foi, de facto, pedir à minha mãe para ir à ginecologista para começar a tomar a pílula (nunca fui a um centro de saúde ou hospital público - felizmente, porque tenho possibilidades para tal, sempre que preciso de ir ao médico vou a especialistas) - porque foi o momento em que ela teve a certeza que eu já não era virgem e eu nunca tive essa conversa com ela.

    Mas sei que não é assim em todo o lado e tenho pena que assim seja!

    Let me Believe

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    1. Acredita que também tenho muita pena :/

      Aqui por casa nunca houve assim esse tipo de abertura. Conversas sobre o período são raras ou envergonhadas, por isso imagina xD

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  3. Compreendo bem o que escreveste. Durante toda a minha adolescência nunca ouvi falar em ginecologista e nem fazia parte dos meus planos visitar um, por falta de conhecimento da minha parte. Aos 19, acho, a minha mãe decidiu levar-me a um por eu ter tido dores muito fortes mas a experiência foi bastante má. O médico era carrancudo, autoritário e todo um sem-fim de qualidades menos boas para um profissional de saúde, limitando-se a dizer que estava tudo bem e que se não quisesse ter dores devia tomar a pílula. Desde aí não voltei a ir ao ginecologista mas sei que deveria procurar um novo, claramente mais simpático e que prestasse mais atenção ao que eu dizia. Tenho adiado e adiado e, honestamente, não sei porquê, mas este post foi um bom lembrete!

    With love, Miss Melfe

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    1. Não digo que seja uma irresponsabilidade não irmos a um médico destes, mas é um dos órgãos mais importantes que tempos, algo que devemos cuidar, porque comanda a nossa vida em diversas vertentes. Também sou da opinião que os pais deveriam aconselhar as filhas a irem, tudo por uma questão de rotina de saúde, como se fossem análises, percebes?
      Toda a gente me dizia que as mulheres eram brutas, que devia ir a um médico, bla bla bla, andei a investigar os médicos da minha zona, a pedir opiniões e depois pensei para mim que devia escolher se era mulher ou homem para a primeira vez e escolhi uma mulher. Muito mais simples e calmo, acredita! Não me custou nada, ela sempre me tentou manter calma e relaxada e quando dei por mim, todo aquele medo e afins tinham terminado em menos de 15min.
      Se queres a opinião de uma desconhecida acabada de se estrear nessas coisas eheh xD pesquisa por um médico novo, seja mulher ou homem tu é que tens que escolher e não a tua mãe, vê as opiniões que existem sobre eles (as amigas são sempreeeee as melhores críticas) e depois marca uma consulta e vai. Provavelmente uma melhor experiência poderá deixar-te mais descansada e esclarecida de algumas coisas.

      Btw, a pílula não tira dores nenhumas. Eu comecei a tomar porque tomava muitooos medicamentos durante os primeiros dias, mal dormia e comia com dores, e pouco me ajudou. Tenho meses bons, meses mais ou menos e meses em que acho que me estão a espetar facas por todo o lado. :/

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  4. Pois, na altura eu queria uma mulher mas não havia nenhuma e... pronto. Mas para a próxima vou ter isso mais em atenção e vou tentar que não seja daqui a uma eternidade!

    Quanto à pílula, eu não queria tomar por não querer tomar medicação, apenas isso. O médico não compreendeu o meu ponto de vista e acabou por ser ainda mais rezingão. Enfim!

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  5. Acho que tinha a mesma idade que tu quando fui pela primeira vez. Depois dos 30 tornou-se na consulta de rotina que mais levo a sério. Todos os anos, não falha. Com o hábito e uma boa médica (prefiro mulheres), deixa de ser uma experiência constrangedora :)

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    1. Também só me senti mais incomodada ao início, depois ficou tudo normal, até porque ela fez com que a conversa fosse fluindo e não se fosse tudo assim tão estranho. Algo que eu gostei foi do consultório parecer um quarto, normal, com alcatifas e tudo xD

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  6. É bom ver que por aqui alguém toca neste assunto! Infelizmente para muitas pessoas, o assunto de ginecologista, nunca foi falado, e há-de chegar a uma altura que todas devemos de ir! Não há que ter complexos! :p

    Beijocas,
    ANDA DAÍ!

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    1. Não sou a melhor pessoa para falar do assunto, mas para mim era algo que não poderia passar em branco. Porque haveremos de ter vergonha de falar destas coisas? Porque haveremos de ter vergonha de nos vigiarmos? As coisas mudam com pequenos passos, mas já é qualquer coisa :D

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  7. Fui ao Gine pela primeira vez com 22, também por vontade próprio porque não tive conversa de menina em casa. Fez com que eu me lembrasse que quando menstruei, pensei que morreria e me deram uns absorventes falando 'usa aí'.
    Adorei o post!
    A Bela, não a Fera blog | A Bela, não a Fera Youtube | Converse comigo no Twitter!

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  8. Mesmo no ponto! Tenho os meus 18, desde o 7° que praticamente debato estes assuntos com colegas e mesmo com a minha mãe, e estou genuinamente interessada em ir ao ginecologista. Nunca tive relações - um fator que muitos tomam como empurrão para se recorrer ao ginecologista - e mesmo assim quero ir para saber exatamente se está tudo bem comigo. Sofro bastante com as dores da menstruação e confesso que até tenho alguma curiosidade no assunto!
    Como já bem deves saber, tenho uma opinião acerca deste assunto da mulher ainda ser tabu em 2017, e talvez um dia fale disso pel blog!
    Beijinhos!

    A Vida de Lyne

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    1. Não acho que uma coisa leve à outra, primeira vez e a primeira consulta. Acho sim que a partir do momento em que temos a menstruação devemos sim manter a coisa vigiada, o corpo sofre mudanças e renovações a cada mês, isso deve ser vigiado de vez em quando. Eu descorei a minha saúde, embora não tenha nada, batia sempre na ~tecla~ de que tinha e tirar medos da nossa cabeça é sempre bom.
      Estou a aguardar por esse post :P

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  9. Por acaso nunca tive esse problema - a minha médica de família sempre foi perguntando quando queria fazer exames e consulta de planeamento, e quando achei que era altura, lá fiz. Foi na altura em que tive que confirmar à minha mãe que era sexualmente activa, por causa da pílula ahah :p no meu primeiro exame, chego lá a contar com a minha médica de sempre, e apanho-a com um estagiário - maior pânico!!! Mas correu tudo bem, e desde então até acho que nunca foi ela que me fez os exames e nunca tive problemas, felizmente. Acho que é uma questão de sorte. Mas fico sempre com a sensação de que de facto sempre levei isto muito mais "na boa" do que as minhas amigas, talvez porque, embora sendo assunto tabu, a minha mãe nunca quis correr riscos com a minha saúde. Obrigada mãezinha :p

    Jiji

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    1. Dava jeito que mais mães pensassem assim. Quem diz mães, diz nós mesmas. Às vezes por vergonhas parvas colocamos a nossa saúde em segundo plano. É algo que de hoje em diante não vou dar desconto, porque ao estarmos bem de saúde, é meio caminho para estar bem em todos os outros aspectos.
      Acho que me dava uma coisa se chegasse lá e a médica tivesse um estagiário :o

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