12 outubro 2016

Da saga, só queremos engenheiros e médicos

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Toda a vida tive de lidar com a ideia de que só indo para medicina ou para engenharias é que ia ter algum futuro na vida (nada disto dito pelos meus pais, atenção!). Foi assim e este país, infelizmente, há-de continuar assim por muito mais tempo, porque as pessoas têm uma mente tão fechada que é de meter dó às pedrinhas da calçada.

Eu segui o que gosto, segui uma paixão e sempre que me perguntam que curso tirei, ficam embasbacados a olhar para mim, sem saberem o que é ou com a ideia de um curso de merda, mas importa é que sejas feliz. Ontem li um texto genial pelo facebook, inclusive até o partilhei no meu facebook pessoal, que falava mesmo sobre isto: "artes e humanidades não servem para nada?". Responde tão directamente a questões e a conversas que tenho no meu dia-a-dia que eu era capaz de imprimir aquilo e enfiar pela garganta de algumas pessoas. Parece um pouco bruto da minha parte, mas quem está em artes, principalmente, sabe o que sofre desde cedo: as pessoas ignoram e simplesmente acham ridículo alguém estudar Artes, porque é o curso dos preguiçosos, dos que não querem fazer nenhum e bla bla bla.

Há uns dias ouvia uma conversa no meu trabalho em que comentavam as profissões das filhas e depois saem-se com neste país, quem não é médico ou parecido não se safa. Eu ri-me e ambas as pessoas ficaram indignadas, mas eu nem passei cartão, não tenho tempo a perder com chatices que não me levam a lado nenhum, muito menos sobre um assunto destes.

Sem as Artes e as Humanidades, tal como falava no texto que li, não havia música, teatro, cinema, telejornal, séries, aliás, tudo o que é a televisão em si, todos os cargos que ela engloba, nem fotografia. Sem essas duas áreas, sem esses drogados, malucos, estranhos e nerdzinhos, não havia grande coisa nesta vida.

É possível passarem por uma paisagem bonita e não a contemplarem? É possível tirarem fotos sem recorrer à arte e a tudo o que evoluiu? É possível lerem um livro se não existisse um pouco de história? Então e os mapas, quem é que os desenhou para vocês? E a vossa casa, foi projectada por quem, por um médico ou engenheiro? A vossa mobília?  Pois é, as pessoas esquecem-se depressa daquilo que as rodeia, daquilo que utilizam todos os dias. Se aquilo existe, alguém o criou.

Tudo isto é aquelas conversas que de vez em quando me apetece debater, porque se há coisas que ainda têm muito que lutar para se afirmarem, são estas: Artes e Humanidades. Os alunos destas áreas não são menos do que os outros, em aspecto nenhum. E, por favor, metam aquele argumento de as outras são mais difíceis numa gavetinha, porque tal como os empregos, achamos sempre que aquele em que estamos é mais complicado do que o dos outros.

17 comentários :

  1. Eu quando decidi ir para Humanidades no 10º ano, lembro-me que o meu pai ficou uma semana sem me falar: ficou mesmo chateado porque apesar de reconhecer que eu tinha um gosto e paixão maior pelas letras, achava que o meu futuro só seria bom se fosse para as ciências (mesmo que isso implicasse ter dificuldades para fazer o curso e ter de recorrer a explicações para as matemáticas e assim).

    Hoje é o primeiro a deliciar-se com as minhas conquistas na área da Comunicação e a apoiar todos os projetos em que me envolvo: percebeu que eu sendo boa no que faço, não tenho (pelo menos ainda não tive, até agora) dificuldades em estabelecer-me no mercado de trabalho.

    Let me Believe

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    1. Aí é que está! Eles demoram a perceber que fazemos o que gostamos, mas quando percebem que o nosso trabalho é bem sucedido assim, eles começam a dar-lhe valor. O meu pai sempre puxou pelo meu lado criativo, a minha mãe pela escrita e o meu mano para a informática. Acho que fiz uma boa união da coisa eheh

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  2. Sou moça de Humanidades e com muito orgulho!
    E sei, vivendo com um Inginheiro, que as nossas formações se complementam, nenhum dos 2 é mais do que o outro!

    Mas foi esse tipo de conversas e atitudes que cavou um fosso entre mim e a família paterna do meu namorado... por isso sei muito bem do que falas.

    Beijinho,

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    1. Felizmente não tenho conflitos na familia por causa disso, embora muitos torçam o nariz, como sempre, a opinião deles não me interessa para nada. Mas a verdade é que as pessoas preferem opinar sobre as profissões dos outros sem tentarem perceber primeiro quais são os gostos delas.

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    2. Na minha família também não se levantam questões com as áreas - aprendemos que todos somos relevantes.

      Na família paterna do meu namorado, o difícil é mesmo ver aquele ambiente de "legado"... :/

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  3. Podia ter escrito o primeiro parágrafo deste texto...fui para engenharia por isso mesmo - e o que é certo é que quando acabei o curso o mercado de trabalho na minha área estava uma m*rda. Tive sorte e arranjei um trabalho porreiro, mas muitos colegas meus ficaram a ver navios...e bom, hoje em dia, sou adepta do olha para o que eu digo, e não para o que eu faço: mais vale escolhermos algo de que gostamos. E eu vou dando essa parte de mim aos meus hobbies...pode ser que qualquer dia mude de profissão :) Bom post!

    Jiji

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    1. E porque não?! Eu trabalho numa empresa em que pouco lido directamente com a minha área, mas volta e meia estou a fazer folhetos, cartazes e coisas assim. De qualquer das formas, estou de um lado diferente da área, ajudando as pessoas a idealizar como querem as casas deles e adoro poder ser util nesse aspecto.
      E se mudares de profissao isso só te vai valorizar ainda mais: fazes sempre o que gostas e aprendes sempre mais e mais :D

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  4. Infelizmente a sociedade que temos é assim, tudo tem que estar nos padrões e todos temos que ser iguais. A diferença não é valorizada e os nossos gostos, vontades e paixões então nem se fala...

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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    1. Sempre lutei para fazer o que gosto, porque eu sei e já experienciei que fazer algo que não gostamos só nos destrói. Depois o mal não é para o fulano que te critica por não teres A profissão, mas para ti que foste de arrasto na opinião dos outros. Aconselho sempre os mais novos a irem para o que gostam e para verem se é naquilo que se querem ver a fazer uns anos mais tarde. Afinal este mundo não precisa ser um peso, certo? :P

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  5. Como te compreendo! A minha profissão é normalmente olhada como pouco séria, como se de um hobbie se tratasse. Quando digo o que faço (sou arqueóloga) ouço sempre o mesmo: "mas isso tem saída em Portugal?", "sempre quis ser arqueóloga/o quando era criança, mas depois deixei-me disso" - como se de uma ideia parva se tratasse -, o que me irrita profundamente. A verdade é que arranjei trabalho na minha área menos de dois meses depois de acabar o mestrado (e nem me estava a esforçar muito por encontrar algo), enquanto que os amigos engenheiros que tenho estão em part-times em lojas. Felizmente sempre tive o apoio incondicional dos meus pais para seguir o que queria, o que sempre me deu força para o fazer. A verdade é que o mercado está esgotado por todos os lados, não há trabalho (ou há muito pouco) -, seja em que área for - ponto. E que não há coisa pior que uma pessoa estudar e passar a vida a fazer o que não gosta. Como diz a famosa frase cuja autoria se atribui a Confúcio, "escolhe uma profissão de que gostes e não terás de trabalhar um único dia na vida". :)

    Aonde (não) estou

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    1. Um colega meu, de Artes, decidiu a meio do secundario que queria muito ir para Arqueologia, e não é que foi? Foi e ficou empregado mal saiu. Sinceramente, é um curso que eu acho supeeeer interessante, mas eu também acho quase todos interessantes à sua maneira eheh

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  6. Mudei de curso de ciências para artes e não me arrependo nada! E guess what, estou empregada, a ganhar bem e na minha área. Há que ir atrás do que se gosta, ignorar essas pessoas pequenas e mal informadas, e arriscar!

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    1. Conheço muito poucos que tenham ido para Artes e tenham acabado por ficar em empregos que não gostam ou a não aproveitarem o curso, mesmo que seja fora das horas de outro trabalho, como um extra.

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  7. Também optei por seguir o que queria.
    Não estou realmente a fazer o que gostaria, mas estou na área e isso já me agrada bastante!

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    1. É exactamente o que penso: não estou na área a bem dizer, mas ao menos não fujo muito à coisa

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  8. Infelizmente em Portugal só se dá valor a quem usa o Dr/Eng/Arquitecto e acha-se que temos todos que ter um curso superior. Esquecem-se que precisamos todos de comer, de ter coisas bonitas para ver (como as tuas fotos, por exemplo), de sapateiros, calceiteiros, etc e tal. Não digo que médicos, engenheiros e arquitectos não façam falta. Mas não são os únicos de que precisamos, devia haver espaço para todos

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    1. Mais depressa é essencial outro curso ou outro profissional qualquer do que um engenheiro, arquitecto ou doutor :P

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